Você tem um carro flex e provavelmente abastece no mesmo combustível toda semana. Por hábito, por preguiça de calcular ou porque sempre foi assim. O problema é que essa rotina pode estar te custando R$ 30, R$ 50 ou mais por mês sem você perceber.
A boa notícia: a conta é simples e leva menos de 10 segundos. A má notícia é que o número que quase todo mundo usa nessa conta, os famosos 70%, envelheceu.
De Onde Veio a Regra dos 70%
Motores flex rodam com etanol ou com gasolina, mas o etanol tem densidade energética menor, ou seja, guarda menos energia em cada litro. Você precisa de mais litros para percorrer a mesma distância. Na média, carros flex fazem cerca de 30% menos quilômetros por litro com etanol do que com gasolina.
Daí sai a regra prática: se o etanol custa menos de 70% do preço da gasolina, ele compensa. Acima disso, a gasolina sai mais barata por quilômetro rodado.
O detalhe que quase ninguém percebe é que esse 70% nunca foi uma constante da natureza. Ele é uma comparação entre dois combustíveis específicos: o etanol hidratado da bomba e a gasolina que existia nos postos quando a regra se popularizou, lá atrás, com 20% a 25% de etanol na mistura.
Por Que o Número Mudou
A gasolina brasileira nunca é gasolina pura. Ela sai da bomba já misturada com etanol anidro, e esse percentual vem subindo: foi de 27% para 30%, e desde 1º de agosto de 2026 está em 32%, a chamada gasolina E32.
Cada aumento dessa mistura deixa a gasolina um pouco mais fraca por litro. E quando o denominador da conta enfraquece, o ponto de equilíbrio sobe. É por isso que o 70% precisa ser recalibrado de tempos em tempos.
Com a gasolina E32, o ponto de equilíbrio fica em torno de 72%. Se o etanol custar menos de 72% do preço da gasolina, ele tende a compensar. É pouco mais que os 70% clássicos, mas o suficiente para virar a decisão em muitos postos.
Cuidado com os 77% que Circulam por Aí
Você provavelmente vai encontrar textos dizendo que o novo ponto de equilíbrio saltou para 75%, 77% ou até 78%. Esse número costuma vir de um erro de conta que vale entender, porque ele faz você abastecer etanol caro achando que está economizando.
O raciocínio errado funciona assim: pega-se a relação de energia entre etanol e gasolina pura, que dá por volta de 70%, e depois desconta-se de novo o etanol que já existe dentro da gasolina, chegando a 77%. O problema é que a regra dos 70% já era medida contra a gasolina da bomba, que sempre teve etanol dentro. O desconto acaba sendo aplicado duas vezes.
Refazendo a conta sem essa duplicação, o efeito real da mudança de mistura é bem menor. Da gasolina E27 para a E32, o ponto de equilíbrio anda algo entre 1 e 2 pontos percentuais. Se o E35 for adiante um dia, deve andar cerca de mais um ponto. Sair de 70% para 77% de uma vez exagera bastante o tamanho do estrago.
Como Calcular na Bomba em 2 Passos
- Veja o preço da gasolina no display e multiplique por 0,72.
- Compare com o preço do etanol. Se o etanol for menor, abastece etanol.
Dois exemplos com preços realistas:
- Gasolina: R$ 6,29/L
- 72% de R$ 6,29 = R$ 4,53
- Etanol: R$ 4,39/L → etanol compensa ✓
- Gasolina: R$ 5,89/L
- 72% de R$ 5,89 = R$ 4,24
- Etanol: R$ 4,49/L → gasolina compensa ✗
Repare no primeiro exemplo: com a régua antiga de 70%, o limite seria R$ 4,40 e o etanol a R$ 4,39 passaria raspando. Com a régua de 72%, ele compensa com folga. É exatamente nessa faixa estreita que a maioria das decisões acontece.
O Número Que Vale Mesmo é o do Seu Carro
Nenhum desses percentuais é uma regra universal, e é importante ser honesto sobre isso. Cada carro tem sua calibração, sua eficiência térmica e seu tipo de uso. Motores flex mais modernos aproveitam melhor o etanol e chegam a compensar acima de 75%. Motores mais antigos ficam abaixo dos 70%.
A única conta realmente confiável é a paridade do seu próprio veículo, e ela é simples: divida o km/l que o carro faz com etanol pelo km/l que ele faz com gasolina. Se o seu carro faz 8,5 km/l no etanol e 11,8 km/l na gasolina, a sua paridade é 0,72, ou 72%. Esse é o número que você deve usar na bomba, não a média nacional.
Para a medição valer, ela precisa ser feita de tanque a tanque, sempre completando até o desarme automático da bomba, e de preferência ao longo de alguns abastecimentos seguidos com cada combustível.
O Navez Calcula Isso por Você
Fazer essa medição no caderninho é chato e quase ninguém mantém. Registrando cada abastecimento no Navez, o app calcula o km/l real por combustível e o custo por quilômetro rodado, e a sua paridade individual aparece sozinha com o tempo.
A calculadora de etanol do app já vem ajustada para os 72% da gasolina E32, e você pode mudar esse percentual para a paridade que o seu carro mostrou. Assim a decisão na bomba deixa de depender de regra de bolso e passa a usar o histórico do seu veículo.
Experimentar a Calculadora Flex no NavezOutros Fatores que Fazem Diferença
A paridade é o principal, mas há variáveis que afinam a decisão:
- Tipo de uso: o etanol demora mais para o motor aquecer e perde eficiência em trajetos muito curtos com motor frio. Se você faz apenas idas e vindas de 2 km, a gasolina pode sair na frente mesmo abaixo da sua paridade.
- Qualidade do combustível: adulteração é real. Etanol com excesso de água ou gasolina fora do padrão distorcem qualquer cálculo. Abasteça em postos de confiança e observe se o consumo muda.
- Mudanças na mistura: cada vez que o teor de etanol da gasolina muda, a sua paridade muda junto. Vale refazer a medição depois de cada alteração, como aconteceu na ida de 30% para 32% e como pode acontecer de novo com a gasolina E35.
Resumo
Com a gasolina E32, multiplique o preço da gasolina por 0,72 em vez de 0,70. Desconfie dos 77% que circulam por aí, porque essa conta desconta o etanol da gasolina duas vezes. E lembre que o número definitivo é o do seu carro: km/l no etanol dividido pelo km/l na gasolina. Use o Navez para achar essa paridade a partir dos seus próprios abastecimentos.
